30 de jun. de 2010


“Bloco de Notas”

O Cinema Noir…

Ou

o Drama da Redenção

Parte I

"O Expressionismo Alemão"


Foi com especial atenção e deleite que li a carta que me fez chegar por estes dias, a

dar nota das suas impressões após o visionamento de 2 filmes expressionistas

produzidos em Hollywood, que alguns críticos franceses eufemísticamente

designaram por “Noir”.


Para corresponder ao assunto da sua carta não tenho outro cavalo que me transporte

senão o que se alimenta dum paralelismo que vislumbro entre o drama vivido pelo

protagonista do filme “Noir” e o do “condenado” que segue um caminho penoso que

o conduz à redenção, no âmbito do drama de cariz teológico.


Desde já falo-lhe da génese da angústia que a corrente estética “Expressionismo”

assumiu como estandarte em finais da década de 10 do século passado. Angústia essa

gerada pelo trauma da vivência no mais terrível e devastador período da história

humana (1914-1945). Até ao século XX, nunca o indivíduo se sentira de tal forma

assaltado pelos seus próprios fantasmas, pela pulsão da morte, tão estranho perante

si próprio e, sobretudo, para com o “Outro”.


A Alemanha, a nação mais castigada e humilhada no seu orgulho, no desfecho da 1ª

Guerra Mundial, torna-se terreno fértil para o desenvolvimento, no campo da arte, de

um discurso pessimista, assombrado, consequência da humilhação do espírito épico

e patriótico do povo alemão, de que as óperas de Wagner e a filosofia de Nietzsche,

são quiçá, a expressão cultural mais retumbante.


É no seio desse povo de alma destroçada, que germina então um estilo de cinema

feito de sombras, de monstros humanos, de contrastes vincados (a duplicidade que

faz nascer, por exemplo, a figura da mulher fatal).

22 de jun. de 2010


Ai de nós, não passamos de uma nuance.

- F. Nietzsche


Sim, não era eu e a minha vontade quem esperou por Ela naquela manhã de

nevoeiro. Não era senão eu de braço dado com a minha consciência, e Ela sabia-o.

No fundo nenhum de nós desejava estar em presença do outro, apreciávamos, isso

sim, a nossa representação através da voz, via telefone, ou através das mensagens

trocadas na net.


Amamos a representação que a nossa intuição, alimentada pela imaginação, faz do

outro, a partir dos escassos elementos comunicantes que percepcionamos. Esse

“pouco” confortava-nos, não desejávamos ter o “eu” presencial do outro.


Abri a lista de mail´s para ler a mensagem que lhe havia enviado com a intenção de

espicaçar a sua curiosidade pelo filme “Crash” de David Cronenberg.


“Os Meus Filmes do Blog”

“Crash” – David Cronenberg, 1996

Parte III

Fucking Days, Fucking Dogs

Ou

As novas plataformas do “Eu” e do “Outro”


As cenas de “Crash” desenvolvem-se em torno de termos recorrentes: sexo, perigo,

excitação e morte. Ao longo das auto-estradas e dentro dos carros os personagens

são envolvidos numa espécie de sub-cultura onde se descobrem novas formas de

sexualidade, no confronto com o desejo para a morte, no seu desafio e na consciência

que um dia a morte vencerá.”


Ela sabia que esperei naquela manhã obedecendo aos ditames da minha consciência

que me ordenou me prestasse a conhecê-la pessoalmente, para não me negar à vida,

não me refugiar no quarto, não me abraçar ao medo, escondido atrás dum écrãn ou

do outro lado do auscultador.


E foi durante o mergulho que dei nestes pensamentos, que ela me ligou para concluir

as suas impressões sobre “Crash”, o filme que vira na outra noite.

Esta é uma era da produção do “outro”, onde a pior alienação é estar despojado do

“outro”, ter de o produzir na sua ausência. Esta ausência preenche-se com as

invenções técnicas que amputam ou acrescentam, modelando o corpo em função de

um modelo ideal.


Fiquei prostrado no sofá, filtrando as palavras que a minha vizinha deixara no meu

ouvido, assumindo uma outra identidade com a voz, apenas a voz, uma faceta, uma

nuance, e não um todo.


“…esse modelo ideal é feito de marcas impressas nas cicatrizes do corpo, como um

catálogo de ferimentos, cheios de amputações e implantes, num esquema em que os

dispositivos da técnica permitem re-alcançar a integridade do corpo, ainda que se

mantenham os vestígios do que parecem ser cicatrizes ou se utilizem próteses…pró…

pró…pró…pró…pró…pró…pró…pró…pró…pró…pró

E foi então que se instalou uma súbita anomalia do outro lado; a voz da minha

vizinha começou a repetir indefinidamente a primeira sílaba da última palavra. Sem

precisar de ouvir mais, ajustei os atacadores dos sapatos, deixei a queimar no cinzeiro

o cigarro (que não fumo) e saí para a rua.


The End


Bibliografia:

Todas as citações empregues nas três partes de que se compõe este “texto” foram retiradas do ensaio “Uma Metáfora Chamada “Crash” – A inquietação do corpo”, da autoria de Paula Cordeiro.

10 de jun. de 2010



Contam as lendas que habitam a mitologia das gentes do Nordeste

húmido e fértil da India, que certa hora, sepultados em remansoso

repouso, se gerou certo rebuliço por entre um grupo de leões brancos

porque avistaram um grupo de saltimbancos e sua caravana que seguiam

floresta fora disfarçados de leões, momos eles, de “casaco” idêntico, um

focinho parecido, bigodes de igual modo semelhantes, trejeitos a condizer

e uma cauda a compor o simulacro. Um deles, o que fazia a figura de

tratador, sustentava nas mãos um velho gramofone que emitia um rugido

mais imenso que o dos verdadeiros leões. Perante tão magnificente

espectáculo, os leões brancos, no papel de espectadores só tiveram uma

coisa a dizer: passaram a língua pelos bigodes, em sinal de satisfação,

rendidos ao aparato.




Lambi os olhos dela com carinho desmedido, confesso, ao vê-la sujeita ao

sofrimento que, no fundo, impôs a si própria. O travo adocicado da saliva

logo se deixou vencer pelo acre e lânguido odor da suas lágrimas.


Fôra atropelada por um automóvel, por desvelo seu, quando se expôs à

sorte, ao desafio, passeando-se estrada fora, mesmo pelo centro da via.

Foi projectada contra um muro e logo as feridas se abriram por todo o

corpo. De imediato um grupo de cachorros correu em direcção a ela.

Apreciaram a sua coragem e foram socorrê-la? Não, todos, excitados

pela vertigem do desafio que ela se dispôs a fazer à morte, correram para

com ela viverem esse momento orgástico, descarregando no ventre dela a

sua energia sexual.


Tomados pela inveja, correram para a possuírem, conseguindo por essa

via ultrapassar esse sentimento que os amesquinhava.

As fotos que lhe tiraram no momento do acidente estão afixadas pelas

paredes do bairro. Uau!! Suspiraram os transeuntes perante a visão de

tão espectacular acidente. Quem é ela? Queremos conhecê-la! Era o que

mais se ouvia pelas ruas.


A heroicidade e o corpo mutilado da cachorrinha fizeram-na atingir um

ideal como corpo-modelo.


“Em “Crash” Cronenberg deixa o corpo assumir a sua autonomia

encarando as suas próprias modificações no quadro das consequências

que acarretam para a sociedade moderna.” Aínda me ressoavam nos

ouvidos estas palavras com que a minha vizinha, dona da cadelinha, me

transmitira as suas impressões sobre o filme que vira no dia anterior.

Não imaginava ela o que se iria passar com a sua cadelinha; de súbito se

tornou uma “star”, à custa das próteses que o seu corpo agora ostenta, à

custa de ser “outra”.

4 de jun. de 2010

Os Gritos de Hitchcock


O curioso sobre a história das artes, é que podemos dizer que determinadas formas de fazê-la em tudo que esta palavra abrange foi desenvolvida por pessoas de especial talento. Assim, é possível afirmar que o cinema feito por suspense não seria o mesmo sem o Mestre do género, isso é bem óbvio.

Entre os apaixonados por cinema, podemos notar que dentre toda a filmografia de Sir Alfred há sempre um filme capaz de agradar, ou seja, alguns não adoram
“Vertigo”, mas idolatram “Suspicion”, parece que sua carreira foi construída com base nessa mentalidade. E não é difícil de entender por que este nome é tão forte, sua preocupação com elementos simbólicos e de interpretação pessoal, não é igualável a Kubrick, mas foi importante para toda a safra colhida nas décadas seguintes ao seu surgimento, porem o que talvez mais chame a atenção em sua técnica é o uso da câmera, mas não é sobre isso que trata este texto.

Ao assistir um filme há sempre uma “Silaba Tónica” que soa mais forte, e que ao passar do tempo te faz lembrar a fita. No conjunto da obra do Mestre do suspense é possível elencar os gritos infernais de seus personagens, que nos proporcionam momentos de adrenalina maior do que muito filme dito pesado.

Na primeira cena de Vertigo acompanhamos a perseguição de
James Stewart e seu amigo a um suspeito sobre os telhados de São Francisco, Stewart salta, escorrega e faz espatifar um pedaço de telha. Seu amigo tenta ajudar e o som é agudo, forte, como se estivesse caindo em um abismo em direção ao inferno. Em seus minutos iniciais, “Vertigo” já disse tudo com apenas um som, “O som perfeito”. O jogo de câmera e montagem empreendido por Hitchcock chama a atenção, mas, o que também impressiona, dentro do cinema, é a utilização do som, o tão chocante grito que expressa “acho que esse é o fim da linha”, é algo que causa mais terror do que qualquer cena de “jogos mortais”.

“O Homem que sabia demais” com todo aquele humor inteligente que não prejudica em nada a tensão forte que causa a cada instante, é um filme que carrega certo ar de sátira, não sei se o mestre quis brincar em sua refilmagem, pois ainda não vi a primeira versão. Doris Day a Renee Zellweger do seu tempo, põe a cereja no topo de uma das cenas de maior nervosismo e apreensão do cinema, com o seu grito alarmante no espetáculo do grande Bernard Herrmann. Outra questão neste filme é a brincadeira de misturar ficção e realidade já que quem assina a trilha é como de costume o Bernard Herrmann.

Provavelmente a cena do chuveiro de
"Psicose" é a mais famosa do mundo e foi preciso apenas uma vitima feminina, um ambiente claustrofóbico onde ocorre o maior numero de acidentes em uma casa, uma faca, uma música e um grito, ou melhor, o grito, que alem de muita crueldade carrega muita sensualidade..

Outro filme que merece ser citado é "Interlúdio”, embora seja um filme de sussurros (espionagem) exprimi o sentimento de desespero que o grito demonstra, em cenas como aquela em que
Ingrid Bergman sendo levada ao quarto tendo a consciência de que esta sendo envenenada, e a de Claude Rains voltando para casa de cabeça baixa sabendo de sua morte certa pelas mãos de seus amigos.

A noção que Hitchcock tinha do mundo físico e do inconsciente humano era literalmente e figurativamente assustadora transformava os acontecimentos banais de seus filmes no mais terrível pesadelo, como o idealismo nazista, egoísta, esnobe e doentio que é o tema central de
"Rope 1948" (meu preferido do mestre), que tem seu inicio com um grito daqueles que temos pedindo por ajuda quando acordamos de um pesadelo, e nesse caso o pesadelo esta só começando, pois o absurdo habita na mente das pessoas. Hitchcock foi um dos grandes mestres das artes, e só não é aplaudido por aqueles que ainda não lhe deram oportunidade.

30 de mai. de 2010


Numa dessas manhãs submersas pelo nevoeiro, quem me quisesse encontrar, dava comigo a

deambular de trás para a frente, com as mãos atrás das costas, qual Willie Fog no embarcadouro

do porto de Londres, excitado pela perspectiva de de se ir entregar a uma das mais

mirabolantes

experiências por que um humano jamais houvera passado: enfrentar desafios e perigos inauditos

com povos e bichos adversos pelos quatro cantos do mundo; isto a fazer fé na versão infantil dos

livros Disney, com a insuperável dupla de heróis Mickey e Pateta como protagonistas da referida

epopeia.


Nessa manhã, à entrada do meu prédio, apresentava-me aperaltado, limpo, barbeado de fresco e

com hálito de menta, e não me importava que o soubessem. Mas passaram-se os minutos às

mãos cheias e nem cheiro dela. Desisti, dei meia volta e subi a escadaria do prédio até ao 2º

andar. Enquanto limpava os sapatos no tapete, o telefone, lá dentro, avisava que alguém queria

dizer, queria falar.

Já lá dentro, fixei o olhar num cartaz que havia na parede da sala. Ema, de Vale Abraão, encosta

o seu olhar à gaiola que enclausura um canário. Se o olhar dela o encanta, como para o engolir

com o seu desejo, logo me pareceu, nesse instante, ouvi-lo cantar um canto suplicante…e foi

então que levantei o auscultador…para Ela me dizer:

“ Os Meus Filmes do Blog “

CRASH – David Cronenberg, 1996

(Fucking Days, Fucking Dogs…ou…a morte do Romantismo como vivência subordinada ao SENTIMENTO e ao IDEAL)


Parte I

Ela: “A narrativa de “Crash” desenvolve-se a partir de um acontecimento que é o mito

fundador da mudança: os meandros do corpo, de noção de corpo, de limites e da exploração

de novas sensações que culminam numa nova vivência sexual.”

Sentei-me entretanto no sofá felpudo para melhor a ouvir falar do filme que fôra ver na noite

passada, imaginando que afagava o pêlo do meu cachorro lúlú, que não estava ali como de

costume, que não andaria longe , por certo.


A mudança de que ela falava via-a eu na postura do meu lúlú de Pekão (cidade do império

chinês,

perdida algures nas planícies da Conchichina, província do reino de Sião) e na lúlú de Pekim,

cachorra estimada da vizinha cuja voz amável tenho ao ouvido, no auscultador, relatando

impressões do filme que vira na noite anterior.


Eles não são mais os mesmos, de cães de companhia, viraram companheiros infieis, ausentes eles

se tornaram desde que ouviram falar da revolução sexual e da sociedade da combustão,

conceitos

que entraram na mente de muita gente nos idos da década de 60 do século já passado.

Eles amam as feridas mútuas, feridas que acentuam quando se amam apenas como animais, já

sem sentimento, afeição, castigam-se e magoam-se ao se amarem com violência, ficam

momentos longos contemplando seus centímetros de cicatriz, corpo mutilado, mente torturada

pelo vazio de que são escravos, enredados num espaço diminuto, no meu apartamento ou no

apartamento d’Ela, Ela que continuou, dizendo:

A mutação do corpo humano, provocada pelos acidentes de viação, desencadeia a queda de

tabus, vergonhas ou preconceitos que propiciam toda uma nova lógica de desafio. Nesse

desafio, constroem-se novas acepções para o corpo num desejo escapista a uma normalidade

repugnante.”


Deixei cair na alcatifa a cinza do cigarro que não fumava, porque a visão dos dois canídeos na

minha varanda, debruçados sobre o espectáculo dos condutores que disparam os bólides sobre o

asfalto da rua, despertou-me a comparação imediata com o prazer que os personagens do filme

em causa desfrutam do objecto automóvel, o qual se impulsiona para a frente de uma forma

desenfreada e cega, submetendo-se à sorte e à pulsão da morte dos condutores.


Os personagens de “Crash” vibram bem no fundo do arrepio do sexo a entrega a um frémito

louco, irracional e seguindo o caminho da pulsão destrutiva. Sim, foi isso que vi ao observar o

meu lúlú de Pekão excitado com a competição dos bólides, imita-os, impondo com violência o seu

sexo às entranhas magoadas do corpo mordido e maltratado da lúlú de Pekim.


É o tédio e a tentativa de fuga, a fuga para a frente contra o muro, rematei eu, para explicar a

mim próprio a causa do que se impunha a meus olhos arrepiados com tão escabrosa mudança

nos

outrora tão românticos animais de estimação, precisamente a lúlú de Pekim e o lúlú de Pekão.

16 de mai. de 2010


"Os Meus Filmes do Blog"



PICNIC AT HANGING ROCK – Peter Weir, 1975

(um discurso sobre a sexualidade)


Tendo aqui chegado, permitam-me então a amável providência e a gentil inspiração

que poise a cartola (que não uso), pendure a bengala (que aínda dispenso) e afague o

bigode (que não tenho), antes de começar a falar aqui, durante algumas linhas, sobre

este filme cuja acção se desenrola no ano de 1900, algures na Austrália, no dia de S.

Valentim.


Estava para aqui com os meus botões a matutar em que moldes é razoável conceber a

figuração da sexualidade senão de uma forma simbólica, como um sonho, em que

não exista linearidade na sequência das imagens, na sequência dos significantes;

onde se omite informação acerca das personagens e seu destino, num filme de

contornos imprecisos, como a névoa que cerca os rochedos de Hanging Rock no

genérico inicial ?!


Antes de chegar aqui e aventurar-me a compor estas linhas, vinha a dizer a mim

próprio que este não é um filme sobre o Além ou sobre o Aquém; este é um filme

sobre a “passagem”, como irei especificando.


Mrs. Appleyard, directora do colégio com o mesmo nome é uma figura austera, de

semblante pesado e descaída na idade, que impõe severa disciplina às alunas, a

disciplina que exige também para si própria, patente na rejeição da vida exterior, na

castração dos sentidos, no isolamento num espaço fechado. O fechamento de Mrs

Appleyard sobre si própria é também uma forma de fuga à tentação, fuga essa que ela

aconselha às alunas que vão participar no piquenique em Hanging Rock, prevenindo-

as para não se aproximarem dos rochedos, alegando que estes são habitat de

formigas venenosas e serpentes.


Como veremos mais tarde, nem as formigas são venenosas nem há rasto de serpente

alguma; o que chegamos a ver são apenas lagartos pré-históricos, tão perdidos no

tempo, tão presentes no desejo de o encontrar, tal como o desejo de assumir a

sexualidade em toda a sua expressão, demonstrada pelas 3 meninas e pela senhorita

Mccraw.


Falo do momento em que todas elas se sentiram irresistivelmente atraídas pelo

magnetismo dos rochedos com formas ponteagudas, (a simbolizarem o falo), para

se dirigirem para o seu interior através de fissuras, libertando-se antes de meias e

sapatos, expondo a pele, sinal de entrega, de obediência à pulsão sexual que as

“arrasta”, como fará mais tarde com o jovem que vem em sua busca.


Entram nas galerias, cujo recorte na rocha se assemelha à entrada do sexo da Mulher,

indo desaguar num espaço amplo, como se de um útero falássemos. Como um

templo que mitifica, consagra o ritual milenar do acto da fertilização. Como que um

templo de tribos de tempos primevos.


O casal de velhos que assentaram os seus corpos no bosque, como esfinges, perto dos

rochedos, são (e porque não?) duas flores que secaram ao sol, por oposição à

depressão que aflige, que estiola e encerra Mrs Aplleyard na obscuridade do seu

gabinete ou do seu quarto.


Vemos a directora, de perfil vitoriano, assim como as professoras do colégio, e Sara,

igualmente, a tomarem uma inclinação pelo desvio em termos de objecto sexual,

seguirem uma propensão para a homossexualidade, devido à ausência do objecto

sexual masculino. É um microcosmos feminino encerrado num espaço limitado,

interagindo e relacionando-se as mulheres entre si.


Sara é, ouso dizê-lo, vítima das abordagens das superioras, algo que não nos é

mostrado mas de que suspeitamos, até pelo castigo a que a directora a sujeita:

proíbida de ir ao piquenique para ficar junto de Mrs. Appleyard a recitar um poema

que esta lhe havia indicado para memorizar. Sara não é capaz, contrapõe sugerindo

recitar um poema de amor de sua autoria (sinal da resistência aos avanços da

directora), sugestão que Mrs. Appleyard, contrariada, logo rejeita, deixando Sara

prostrada, em lágrimas (a mutilação do desejo), chamando pelo irmão (figura

masculina e paternal que substitui o Pai, que Sara, órfã, não deve ter chegado a

conhecer) e por Miranda, figura maternal, a quem Sara dedica amor, expresso em

poemas.


Miranda, um anjo saído das telas de Boticcelli, no dizer da sua professora, inspira

amor, homens e mulheres seguem-na com o olhar. Ao desaparecer por entre os

rochedos, dominada pela pulsão sexual, torna-se um símbolo, símbolo de quê? Do

desejo humano de abraçar, de se entregar ao mundo, de cumprir o seu Ser na sua

totalidade: intelecto e sentidos.


O que é que Miranda deixa para trás? Um grupo de mulheres tomadas pela histeria,

enquanto sintoma patológico, provocado pela mutilação do desejo; histeria essa que

as faz sentir repulsa pela pulsão sexual (como manifestou a rapariga que ficou em

pânico ao sentir o magnetismo dos rochedos, e voltou aos gritos, em estado de

choque para o local do piquenique).


Sara representa as que ficam para trás, é a figuração do esvaziamento (a única forma

de erotismo que lhe estava reservada: o espíritual, é espezinhado pela directora), da

perda, da ausência de laços estreitos com o mundo que a rodeia, é o simbolo do

sofrimento humano, do Homem apenas consigo próprio, já sem reflexo nos outros,

que nos outros já não se encontra a si próprio.


Um filme tão intenso pelo que de belo transporta quer no seu jogo simbólico quer no

esplendor das suas imagens.


The End

10 de mai. de 2010

Woody Allen e a pergunta: "Porque vale a pena viver?"





Texto Original
"An idea for a short story about ... um ... people in Manhattan who ... er ... are constantly creating these real unnecessary neurotic problems for themselves - because it keeps them from dealing with more unsolvable terrifying problems about ... er ... the universe - Um, tsch -- it's, uh ... well, it has to be optimistic. Well, all right, why is life worth living? That's a very good question. Um. Well, there are certain things I - I guess that make it worthwhile. Uh, like what? Okay. Um, for me ... oh, I would say ... what, Groucho Marx, to name one thing ... uh ummmm and Willie Mays, and um, uh, the second movement of the Jupiter Symphony, and ummmm ... Louie Armstrong's recording of "Potatohead Blues" ... umm, Swedish movies, naturally ... "Sentimental Education" by Flaubert ... uh, Marlon Brando, Frank Sinatra ... ummm, those incredible apples and pears by Cézanne ... uh, the crabs at Sam Woo's ... tsch, uh, Tracy's face ..."

Texto traduzido caso necessário (nota-se que perde alguma da improvisação do monólogo)
"Uma ideia para um conto sobre pessoas em Manhattan que constantemente criam estes problemas reais, desnecessários e neuróticos em que se metem porque as impedem de pensar nos problemas insolúveis e aterradores do universo. Vamos... Bem, tem de ser optimista. Bom, tudo bem, por que vale a pena viver? Essa é uma boa pergunta. Bem, penso que há certas coisas que fazem com ela que valha a pena. Hm, Como por exemplo? OK... para mim... Diria Groucho Marx, é uma delas... E o Willie Mays. E... o segundo movimento da Sinfonia de Júpiter... a gravação de Potato Head Blues do Louis Armstrong... Filmes suecos, naturalmente. A "Educação Sentimental" de Flaubert... Marlon Brando, Frank Sinatra... Aquelas maçãs e pêras incríveis de Cézanne, hum, carangueijo no Sam Woo's.... O rosto da Tracy."

Esta é uma das cenas mais famosas do filme Manhattan, escrito, protagonizado e realizado por Woody Allen em 1979. Aqui, em particular, enquanto grava a sua própria voz e vai memorizando algumas das suas ideias, a personagem interpretada por Woody Allen (Isaac) acaba por se perguntar: "Why is Life Worth Living?", em Português, podemos traduzi-la para um mais simples "Porque vale a pena viver?" ou "Porque vale a pena a vida ser vivida?" (encontrei das duas formas em diferentes traduções)

Agora, vou directo ao assunto que me fez escrever este post. O objectivo é lançar-vos um "desafio". Já devem ter adivinhado do que se trata, o que eu propunha é que vocês mesmos respondessem a esta pergunta. Se tiverem a oportunidade de elaborar uma resposta, peço-vos que a façam unicamente à vossa maneira, claro que não precisam de fazer um texto tão curto, vago e resumido como o original (ainda por cima com tal questão!).

Tomei a iniciativa de tentar começar eu com a minha resposta, fi-la da forma mais improvisada possível. Não consegui mesmo resumir-me como o Isaac no monólogo do filme (e já foi difícil resumir tanto), mas quis escrever da forma mais instantânea possível para me manter minimamente fiel ao espírito que queria que o monólogo transmitisse.

Neste momento imagino-me no corpo daquela personagem e respondo-me à mesma pergunta:
"Porque vale a pena viver? Hm, é uma pergunta que poderia ter uma resposta diferente consoante o dia e disposição. Mas vou seguir as minhas convicções de hoje e falar dos primeiros motivos que me vêem à memória. Hum, começo pelo Cinema.... e que motivo...! O facto de saber que ainda tenho e poderei ter TANTO para ver dá-me uma alegria quase deprimente!... Nele há o humor de Woody Allen (pois claro), os rostos de Bergman, a postura do Chaplin, a ousadia do Bertolucci ou o perfeccionismo do Kubrick (...) Do outro lado da câmara, há a fragilidade da Audrey Hepburn, a beleza distante de Catherine Deneuve, o sorriso da Audrey Tautou, ou as sobrancelhas da Natalie Portman. Mais razões? Fernando "Pessoas"... Oscar Wilde... Bach e Chopin... Jimi Hendrix... Charles Dickens... Vodka, Tequilla e a siesta da tarde, o prazer carnal partilhado e sentido... Portugal, os nossos irmãos brasileiros cheios de ritmo. Falar de Tom Jobim é preciso claro... Tom Waits, Louis Armstrong e os "roucos" deste mundo. A "Stairway to Heaven","What a Wonderful World" ou a sempre nostálgica "Smells Like Teen Spirit". Há o inesperado, o desafio arriscado que é viver, a infância, a descoberta! Hm, também a "Madonna" de Munch e as ilusões ópticas de Escher. Dali! Magritte! O aventureiro Errol Flynn! ... Documentários sobre animais selvagens num Domingo de manhã. O meu acto de tentar imitar o penteado do falecido River Phoenix e nunca conseguir. Vozes femininas como as de Ella Fitzgerald, Nina Simone, Björk, Janis Joplin, Patti Smith, Joanna Newsom ou Maria Callas (...)! Há o fiambre de peru, o salmão grelhado, maçãs absolutamente verdes e duras, uma canja de galinha depois de uma noite de "borga"... chocolate branco! Morango e tudo o que se produz a partir dele... Caminhar descalço sobre a relva molhada, correr através de um enorme campo de trigo. Ser espontâneo e quebrar a monotonia qual "Singin' in the Rain". Mas principalmente, há o sonho de viajar pelo mundo e o desejo de deixar uma marca significativa em algo ou alguém antes de partir. E claro, porque não? O Amor!"

Pode parecer cliché, mas é como vimos no mais recente filme de Woody Allen, o Whatever Works (conhecido como "Tudo Pode dar Certo" tanto em Portugal como no Brasil, penso) quando a personagem Boris diz que "às vezes um bom cliché é a melhor forma de nos expressarmos". Não podia concordar mais e o meu texto segue esse espírito. Na próxima semana poderia dar uma resposta totalmente diferente.

Obrigado, esta foi a minha primeira participação directa nas mensagens do Theories. Parabéns pelo que já fizeram no blog!

7 de mai. de 2010


"Os Meus Filmes do Blog"

Morte em Veneza

(Parte III - O Homem Dual, ou O Principio do Absurdo)

Quando este filme se desenrola, desenrola-se sobre dualidades, contradições.

O professor Gustav surge das trevas nas águas negras da madrugada e nas névoas escuras que

habitam as madrugadas do mar que banha Veneza.

O professor surge das trevas para ser sacrificado pela luz que desmascára a verdade que a

sombra encerra.

A verdade que pode destruír Veneza e que a cidade camufla e desmente: a peste, o contagio dos

corpos, o abandono, a morte, ou seja, a cidade desvia-se da realidade, vive num plano idealizado

pelos postais turísticos, tal como o professor que confessa a Alfred que a realidade é um estorvo.


Tal a cidade de Veneza, tal o professor, que por seu lado sempre tentou resguardar-se da

realidade dos sentidos, e essa foi a verdade que acabou por destruí-lo: o abandono à paixão

amorosa.


The End.









4 de mai. de 2010

O primeiro dos "meus mil filmes"

Não cheguei ao My one thousand movies à procura de nenhum filme. Cheguei de linque em linque. De blogue em blogue. Foi como ser criança numa loja de doces (ou, sejamos cinéfilos, visitante na fábrica de Willy Wonka), o milionésimo cliente de uma livraria favorita, premiado com a permissão para assaltar as prateleiras.

A estreia fez-se com Fellini. La strada. Não foi cumpridora do espírito alternativo do blogue mas o que é óbvio não perde valor por sê-lo. Manter a originalidade sem perder de vista as obras históricas é um mérito inegável do MOTM. E La strada será, porventura, o melhor road movie de sempre.

Mais do que atravessar Itália, cruza-se a decadência e fome dum país. Era isso, afinal, o neo-realismo. Zampanò a figura opressora, de hábitos perversos, não era mais do que o reflexo da sua época. Era o que as circunstâncias fizeram dele. Acaba o filme chorando Gelsomina, morta por sacrifício e amor. Morta de tristeza, por ser mulher, por não poder ser dona de si. Personagem mulher eterna, o lado feminino e martirizado de Chaplin, de Keaton, que nunca sorriu em cena, jamais repetido. Os dois e o louco, num bailado pungente. Lutando pelas alegrias possíveis, das quais Zampanò já desistira. Talvez por isso seja ele quem sobrevive, mesmo que consumindo-se para sempre.

27 de abr. de 2010


MORTE EM VENEZA

ou

(um ensaio de Visconti sobre a ilusão, a duplicidade e a mentira)

Parte II

Há dois factores que se assumem, que não nos deixam dúvidas, desde o início do filme: o papel fundamental do Adagietto da Quinta Sinfonia de Mahler, como elemento da narrativa, mais do que simples emolduramento sonoro.

O segundo facto é, desde logo, a atracção do professor Gustav (por certo uma homenagem ao compositor Gustav Mahler) pelo jovem efebo, Tadzio, ponto esse que determina o desenrolar da narrativa.

Há porém um facto que se apresenta num plano secundário, quase imperceptível, que, no entanto, acho de importância para esclarecer o subconsciente dos personagens. Parece-me, que o professor terá tido uma ligação amorosa com a mãe de Tadzio no passado, pois a mulher que ele recorda (ou sonha) num idílio campestre em feliz convívio amoroso com ele, parece-me a mesma que esconde o rosto com um creme branco e com o véu rendado que lhe desce do chapéu magnânime.

No presente em que decorre o filme, são ambos tentados pela paixão homossexual, ela por uma rapariga a quem põe a mão no ombro, na praia, e ri, no único momento de descontracção durante todo o filme.

Ele, severo defensor da moral e dos costumes, deixa-se apaixonar pelo filho da mulher que (outrora amou?) em sonhos (dele), lhe oferece o filho, quando o chama…para que o professor lhe acaricie o cabelo.

Enquanto ela se esconde por detrás duma pose silenciosa, rígida, apagada, ele não consegue manter a máscara, e apaixona-se por um…rapaz, o que vai solenemente contra a moral que ele tanto defende.

Por falar de ilusão e de máscaras, é de notar que o velhote que se despede do professor, com um riso trocista, quando este se apresta para sair do Vaporetto, com um “Our best whises, signore!” faz-me pensar: mas afinal quem é e o que representa esta personagem? É licito perguntar.

Se o professor o despreza pelo seu aspecto e pelo tom trocista, é por demais curioso, que é assim vestido (travestido) e com o rosto maquilhado como o velhote que dele se ri, que ele vai encontrar a morte. Será absorvido pela ilusão, a máscara, a mentira da cidade.

Chegou à cidade de barco, não a morte, como Nosferatu, veio, isso sim, para aí a encontrar, na cidade dos sonhos mais românticos (e é pelo coração que ele se perde).

A cidade infestada pela peste, pelo cheiro pestilento, que é desinfectada com líquido branco (o mesmo branco das máscaras de beleza), para manter a aparência da beleza que nos é dada pelos postais turísticos.

Num filme marcado pelos contrastes, é curioso ver como o público que assiste ao concerto que o professor orienta, o apupa, a ele e à sua musica, demasiado esquemática, matemática, estruturada, elaborada, numa palavra: “fechada”, em contraste com a musica de gosto popular que (talvez as mesmas pessoas) aplaudem na esplanada do hotel, na noite em que lá entram os músicos-pedintes. Sequência magistral.

Há um conjunto de rejeições que vão empurrando o professor Gustave para a sua derrota espiritual, para a morte, enfim.

O seu amigo(?) Alfred (figura que muito se assemelha à de Gustav Mahler) critica severamente a sua música, o público rejeita-a; Tadzio sempre se esquiva, não se entrega. Apenas, nos momentos finais do filme, quando vai entrando pelo mar adentro, Tadzio lhe estende o braço ao longe, e é então que o professor em agonia, lhe tenta estender a mão….mão que se recusou à mão de Esmeralda (a prostituta) quando esta apertou a sua, no bordel.

Esmeralda é também o nome do Vaporetto que transporta o professor até Veneza, a cidade que o emaranha na teia da ilusão, da duplicidade, da máscara, da mentira.