26 de ago. de 2010

A BELA IMPERTINENTE

(Jaques Rivette,1991)


A líbido como prisão e libertação

O predador e a presa,

Eis a velha proposição,

Que, passando os tempos se vão

E se mantém tão acesa.

Porém, uma questão se impõe com firmeza:

O predador… não poderá ser também a presa?!


Enquanto me dirigia para aqui, passei pela entrada de uma caverna, a caverna mítica; abreviei o passo e levei os meus olhos curiosos a espreitar lá para os seus interiores…e que viram os meus olhos surpreendidos? Um dragão refastelado nos seus Reais aposentos (a caverna que tinha gravadas nas paredes duas figuras femininas, uma delas de uma beleza notável, a outra nem por isso, figura desgastada pela corrupção do tempo, que o tempo se encarregou de disfarçar os traços, sem elegância nas formas, velha gravura dos tempos da face negra da lua).

Enquanto dormia, o dragão ia soltando algumas palavras. Pude perceber que, balbuciando os lábios, ia contando alguns episódios de uma história, remexendo as órbitas e a saliva escorrendo dos lábios agitados.

Dizia ele que um certo pintor, que vivia num castelo com a sua esposa, encarava as suas modelos como o caçador encara a presa que lhe escapa, e só tirava prazer do acto de as pintar enquanto a modelos lhe resistem, o seu corpo e sua vontade não se dispõem às poses com que ele as quer fixar na tela.

Certo dia aquela que veio a ser sua esposa fora também sua modelo para um quadro que para ele era então um desafio, mas de repente o pintor perdeu a motivação e deixou-o inacabado, muito incompleto. Ela deixara de lhe proporcionar uma “caçada” mesmo antes de ser fixada na tela, pois por ele se apaixonara.

Antes ele dizia-lhe: “Quero pintar-te porque te amo”, mas a partir do momento em que ela aceita fazer parte dele, do seu microcosmos, ele confessa-lhe: “Não te quero pintar porque te amo”, o amor falava por ele.

E foi nessa lógica montado que ele propôs a uma jovem que o visitara no seu castelo, acompanhada do marido, que dele se fizesse modelo. Ela tinha o nariz empinado, lá isso tinha, era muito senhora de si. Embora amasse o marido, pressentia já que um dia se zangariam a sério, era como se ela soubesse já que a relação deles não tinha futuro, como se andasse em busca de uma fuga, inquieta.

Ela aceitou, contrafeita, embora não suportasse os modos desagradáveis do pintor; e lá foi com ele para o ateliê.

Que nos intervalos das sessões no ateliê, a modelo procurava a esposa do pintor para que esta dele falasse para ela melhor conhecer a postura distante e “superior” do pintor para com ela; foi algo que também percebi que o Dragão sonolento deixou escapar por entre os lábios.

E o dragão foi contando que por esses dias naquele castelo onde tudo se passava, o silêncio reinava, as paredes de pedra tinham um semblante frio para que a palavra a tudo se sobrepusesse, para que ela revelasse que nada nem ninguém tivesse naquele castelo mais força que a palavras.

E o que é certo é que se ao princípio o pintor a tratou com rispidez, pegando-lhe, bruto, nos braços e ombros, forçando o seu corpo às poses que pretendia, como se duma luta se tratasse, ela, porém foi vencendo a sua rispidez, a sua “superioridade” de senhor daquele espaço e da presa encurralada.

Ela foi conversando com ele, conquistando a sua simpatia e a certa altura ELE ACEITAVA JÁ as suas poses naturais, nada lhe impondo, antes aproveitando para fixar as poses dela que achou mais interessantes nesse momento de comunhão de espíritos.

Mas depois desse MOMENTO ORGÁSTICO, ambos se fecharam novamente, foi como se depois de ambos se terem partilhado, ele se sentisse vencido, o predador sentia-se ferido no seu orgulho, e deixa de ter estímulo para pintar, sem saber lidar com a aproximação que entre os dois se gerara, sentia-se vencido por aquela que sempre vira como presa.

Deixou o quadro inacabado, escondeu-o num lugar inacessível para que ninguém sentisse que ele fora derrotado.

Então, ele pintou à pressa um corpo sem rosto, um corpo anónimo, e assim tanto ele como ela se conseguiram libertar, afinal, da tensão do “COMBATE” QUE ENTRE ELES SE INSTALOU desde o momento em que ela lhe invadiu o refúgio para perturbar a sua paz, como ele referiu no início do filme.

Nas sequências finais, vêmo-los já descomprometidos com as amarras, os medos que os prendiam.

E se eu caí abaixo da cama nesse momento da narração, foi apenas porque me vieram acordar - quando eu sonhava com a caverna do animal mítico - avisando-me de que o pequeno-almoço estava já na mesa.

23 de ago. de 2010

BARRY LYNDON….o anti-herói quixotesco

(Stanley Kubrick, 1975)

Os tempos de Rolando* passaram, os do Quixote não mudam. E porquê esta disparidade? Porque se atrofiam os heróis sublimes enquanto que os ponderados mestres do fracasso se mantêm de pé? …”

- Agustina Bessa-Luís-


O esplendor que abraça esta película é constatado, desde logo, pela sua plasticidade, pelo cuidado na composição das imagens. Neste campo, o filme aproxima-se, creio, do trabalho de alguns pintores ingleses, o barroco Gainsborough e os românticos Constable e Turner, pelas cores e os céus daquelas paisagens que ele filma como se quisesse fazer um breve intervalo na narrativa e deixar a “voz off” fazer a ligação para o que a seguir veremos, sobreposta a uma paisagem, por vezes tão arrebatadora imagem.

Este trabalho de Kubrick é igualmente objecto de devoção pela particularidade do uso exclusivo de luz natural, factor de veracidade que contrasta seriamente com a postura de algumas personagens na trama do filme, em particular a conduta do seu protagonista, como iremos verificar.

O enredo do filme é, no fundo, o desenrolar da saga (pouco venturosa) de um homem de origem humilde que ainda moço dá mostras de se encaminhar por uma conduta heróica e romântica, dissolvendo-se depois o seu carácter na imitação da perfídia das personagens por quem foi sendo iludido e enganado ao longo da primeira metade do filme (a prima, os ladrões na estrada, a prostituta com o menino, o capitão do exército prussiano).

Barry Lyndon é a saga duma personagem de perfil quixotesco, desde logo pelo seu carácter romântico, quando jovem, montado no seu cavalo, pouco preparado para as rasteiras que a vida lhe pregaria; ele segue montado no “cavalo da ilusão”, deslocado da realidade, pela vida fora.

Na segunda metade do filme vêmo-lo como um jogador, um trapaceiro, um peão ao serviço da mentira, a duplicidade, que o capitão do exército prussiano ajuda a refinar na sua mente.

Mais uma vez o vemos embarcar, em cima de um cavalo, numa ilusão que agora se molda pela conquista de fortuna e estatuto social que lhe permitirão uma vida tranquila e desregrada. Isso ele conseguiu, mas por via da fuga à realidade para a qual tendia a sua mente, mais uma vez o infortúnio lhe bate à porta, e termina derrotado num duelo, é-lhe amputada uma perna, e na ultima cena, o realizador poupa-o a uma ultima humilhação: ver-mo-lo cair abaixo da diligência.

Não criou raízes, nada construiu, viveu à custa de mentiras que prejudicaram os outros. Contudo, não consigo reprovar mais a sua postura do que a das personagens que foram traindo as suas ilusões.

Será apenas a um homem e à sua falta de princípios que Kubrick aponta o dedo nesta obra? Não me parece, antes sou levado a crer que este filme é, isso sim, um libelo acusatório a uma ideologia política (liberalismo) assim como a um sistema económico (capitalismo) que este autor quer desmascarar na personagem de Barry Lyndon, que cresce num meio que desponta e refina o mal e a perfídia no ser-humano.

Quando concluíu as filmagens desta obra de tom “amargurado”, Kubrick poderia ter dito algo semelhante ao que Raskolnikov, o assassino de “Crime e Castigo”, já vencido pela culpa e tomado pela lucidez, desabafou: “Não matei um ser humano, mas sim um principio”.


*Rolando: personagem da literatura medieval e renascentista europeia, inspirada num obscuro conde que viveu no sec. VIII. Foi sobrinho e paladino do imperador Carlos Magno e morreu heroicamente, lutando contra os Mouros na Peninsula Ibérica.

12 de ago. de 2010


o Cinema Noir … ou o Drama da Redenção

PARTE III

Cinema Expressionista Alemão

(a OBRA e o ESPELHO)

Li certa vez um texto muito breve, como breve poema de contornos trágicos; de tão amargo sabor, a sua poesia dava documento das impressões de alguém profundamente perturbado pela visão das mulheres que vagueavam pelas ruas de Sarajevo, mutilada pela 1ª Guerra mundial; fala ele nas faces secas de pele crestada e o cabelo já grisalho a reforçar o ar abandonado das mulheres que, não tendo atingido ainda a meia-idade, não lhes era já possível ocultar os traços da velhice que o trauma da guerra lhes impusera.

Foi a guerra de 1914/18 – onde se misturavam mentiras oficiais, valores heroícos, espírito de sacrifício e barbárie - o primeiro grande sinal da saturação da servidão emitido pelo Homem a quem a providencia divina ou tão só a humana usurpação conferiram o poder de administrar.

Para sustentar esta perspectiva, socorro-me agora destas linhas saídas da pluma caprichosa de Agustina Bessa-Luís:

A saturação da servidão não é uma revolta; é um sentimento de desapego imenso quanto aos princípios que amaram, os deuses a que se curvaram, os homens que exaltaram. (...) Mas foi crescendo a saturação da servidão, porque a alma humana cresceu também, tornou-se capaz de ser amada espontaneamente; tudo o que servimos era o intermediário do nosso amor pelo que em absoluto nós somos. Serviram-se valores porque neles se representava a aparência duma qualidade, como a beleza, o saber, a força; esses valores estão agora saturados, demolidos pela revelação da verdade de que tudo é concedido ao corpo moral da humanidade e não ao seu executor.
Um grande terror sucede à saturação da servidão
.”

Na Alemanha do pós-guerra, um conjunto de cineastas avançou com uma proposta que resulta fiel à culpabilidade e angústia do homem comum mais uma vez sente depois do terror que a sua revolta para com a autoridade do “Pai” (filmes obscuros, fruto do medo do Monstro e do terror que isso causa) cinema povoado pela luz intensa a ser invadida pelo monstro saído das trevas (como Nosferatu; como o assassino de M – Matou; como Jack o Estripador em A Caixa de Pandora). Filmes que dão fiel testemunho da bárbara causa e do efeito predador de que o povo alemão - o mais humilhado e ferido no seu orgulho pátrio, no final da 1ª guerra mundial - foi vitima maior.

Tratam tais películas de objectivar nos rostos e nos gestos das personagens, O MEDO que as sombras da alma ocultam, quando já não se pensava possível que o homem civilizado alimentasse em si aquilo que Freud denunciou como a “pulsão da morte”, constituinte do subconsciente humano.

Tombada a cabeça vencida pelo sono na máquina de escrever em que desenrolo este novelo, sou assaltado pelo espectro de “O Retrato de Dorian Gray” que figura um jovem cavalheiro cujo retrato vai mostrando uma evolutiva degradação no rosto do retratado, à medida que este vai cometendo actos cruéis.

Se na obra de Oscar Wilde o retrato transmutava automáticamente por obra duma mímica entre a alma do retratado e da sua representação na tela, numa fidelidade de toque expressionista pela distorção, disformidade do aspecto físico como símbolo directo do estado de espírito do retratado.

A tela como espelho. A arte que imita a vida, como sustentava Oscar Wilde.

A contemplação interior, o virar-se para si próprio numa angústia existencial de que a guerra foi causa directa, pois abriu a caixa de Pandora em que todos os males do humano ser se exteriorizaram de forma mais acentuada, mais bárbara do que até aí.

Os fantasmas interiores que atormentavam a alma do povo alemão personificaram num cinema de cariz expressionista através de monstros humanos cuja única razão de ser é a aniquilação dos seres que buscam a plenitude da sua paz, assim como Caím teve como única justificação, eliminar Abel (o sopro de vida).

O monstro que é um Eu recalcado que emerge do subconsciente, um “Outro Mortalmente Agressivo” que é um Eu espezinhado, o mal emerge da escuridão do recalcamento, do trauma que nos foi causado no passado, e que ao emergir se dirige aos outros numa figura desfigurada pela fealdade, ou pelo menos é assim que o cinema expressionista o representa.

26 de jul. de 2010

Os maiores fracassos de bilheteira dos anos 00

Bem não tenho escrito nada no blog muito por causa dos meus exames... (anatomia grrrr), mas vi um artigo muito interessante que gostava de partilhar:


Basicamente o artigo descreve os maiores fracassos de bilheteira dos anos 00, no entanto só tem em conta o Box Office dos USA, ainda assim... vejamos os títulos:

10 - The Fountain (D. Aranovsky): Custou 35m, rendeu 10.1m: este compreende-se que tenha tido pouco sucesso pois é um filme díficil, até para cinéfilos experientes e é um filme que muita gente odiou, metade das críticas foram negativas, eu adorei, achei transcendente...

09 - Sunshine (D. Boyle): Custou 40m, rendeu 3.7m: embora o final comprometa pois é um pouco cliché, a viagem até ele é muito boa, muito na veia de 2001 odisseia no espaço, é um dos melhores filmes de Sci-Fi da última decada

08 - Serenity (J. Whedon): Custou 39m, rendeu 35.5m: é baseado naquela que é, a par com Battlestar Galactica, a melhor série de Sci-Fi de sempre e que foi injustamente cancelada a meio da primeira temporada, o filme embora lhe falte um pouco da genialidade da série foi um dos meus preferidos de Sci-Fi dos anos 00.

07 - Funny People (J. Appatow): Custou 75m, rendeu 51.9m: com Adam Sandler em papel príncipal e Appatow a realizador é díficil de entender porque é que este filme foi um fracasso, ainda para mais é o filme de Appatow que é mais bem conseguido e com mais piada, talvez tenha sido má publicidade. Facto interessante... é um filme sem efeitos especiais... ainda estou para perceber onde foi parar tanto dinheiro....

06 - Marie Antoinette (S. Coppola): Custou 40m, rendeu 15.9m: embora não seja tão bem conseguido como Virgin Suicides ou Lost in Translation é um filme bastante bom, e com um dos meus actores de eleição - jason schwartzman, que já agora faz uma série noir fenomenal chamada Bored to Death com os também geniais Zach Galaffinakis e Ted Danson

05 - Che (S. Sodderberg): Custou 40m, rendeu 1.7m: é a obra prima de Sodderberg e um dos grandes épicos da década passada, é um filme muito longo, mais de 4horas, mas que merecia ter sido visto na sua versão integral e não separado em dois. Del Toro faz uma das melhores performances da década...

04 - The New World (T. Malick): .Custou 30m, rendeu 12.7m: Malick é um dos actuais mestres do cinema, só que realiza poucos filmes, portanto sempre que ele nos proporciona uma das suas obras de arte deveria ser razão para meio mundo ir ao cinema... o que não aconteceu. É uma pena pois está é a melhor versão de sempre da história da Pocahontas... sim aquela história do filme da Disney e do Avatar...

03 - The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford (A. Dominick): Custou 30m, rendeu 3.9m: É talvez o melhor filme da década passada, e a seguir a Once Upon a Time in the West é o melhor Western de sempre, aliás Dominick "rouba" muitos planos ao mestre Leone... Uma cinematografia do mais bonito que há e uma das melhores performances de sempre em Casey Affleck... Tem recebido um pouco mais de atenção na edição DVD/Blu-Ray do que no cinema (o que por um lado é bom mas por outro é mau porque as pessoas perderam uma das melhores experiências cinematográficas dos ultimos anos) Recentemente soube da existencia de um Director's Cut de mais de 4 horas, mas que infelizmente não está disponivel em lado nenhum... é esperar que a Criterion pegue nele, era mais que merecido...

02 - Master and Commander: The Far Side of the World (P. Weir): Custou 150m, rendeu 93.9: O facto deste, e Sunshine, serem os piores filmes nesta lista mostra a importancia dela. Não é de longe uma obra prima, mas é um filme muito bom! Era para ser uma série de filmes mas depois do fracasso do primeiro acho que os estúdios não pegam mais nela...

01 - Zodiac (D. Fincher): Custou 65m, rendeu 33m: é um filme noir dos tempos modernos... tão bom quanto Se7en ou Fight Club e com o sempre fenomenal Robert Downey Jr, é no entanto um filme muito menos comercial dos que os outros do realizador, ainda se vai tornar num grande culto (secalhar até já se tornou...)


Toda esta lista para dizer o que? Aquilo que já todos sabemos suponho... Embora haja muitos filmes com muito exito que são muito bons (e eu adoro um bom blockbuster), nem sempre o sucesso do filme reflecte a sua qualidade... Esperemos que pelo menos um destes ganhe culto e seja reconhecido como um dos melhores filmes de sempre... O melhor exemplo de uma situação destas é Shawshank Redemption, foi um fracasso de bilheteira, não ganhou Oscares mas hoje em dia, muito devido ao IMDb, é visto como um dos melhores filmes de sempre... Assassination of Jesse James é melhor que Shawshank... precisam de mais alguma razão para verem todos os filmes desta lista??

24 de jul. de 2010


Stationary Traveller

(uma rumagem imaginária pelos becos e prateleiras, pelo pó e vielas, por montes e vales, na busca de 5 filmes para a lista que apresentei no MOTM)


O senhor de modos graves e gestos profundos que se plantou à entrada do videoclube que havianaquela tarde, ao cair do sol, dirigiu-me um gesto discreto, envergonhado até, com a mão mutilada em combate, convidando-me a entrar.Envergando um estimado fato de marinheiro, um atento papagaio trazia poisado no ombro, bicho de olhar fixo, que atentou em mim com olhos miudinhos, adormecidos, de olhar morto, lamentoso. E foi então que fiquei parado à entrada, passando pelo interior do videoclube um olhar pesquisador, não me apercebendo que entretanto um cachorro atrevido aliviara a bexiga nos meus sapatos… humilhados.

De bigodes fartos e envelhecidos, o capitão trazia sentados na cana do nariz uns óculos necessários, ele que assim figurado com traços românticos, aventureiros, representava a vitória da memória dolorosa num homem sobre quem o tempo julga, e com razão, que venceu, que derrotou.

E porque havia sido capitão de um navio pirata, e porque, cansado da pirataria rumou a Hollywood onde lhe atribuíram papeis de pirata em filmes musicais, nos quais cantava e dançava de espada em punho, ei-lo que justificou assim a alcunha de “Capitão”.

Fiquei contente por vê-lo ocupado, a não apodrecer no canto do tédio, arrumado, como o casco fossilizado dum barco rabelo que apreciei nas encostas do Douro, absorvido pelas raízes dasvideiras pródigas, que nele lambem o húmus da madeira carcomida para temperarem a casta.

Ele soube, nunca revelou como, que eu deambulava pelas vielas negras, esquecidas, estreitíssimas, farejando em velhos videoclubes de paredes já apodrecidas, de olho fixo nasprateleiras curvadas sob o peso das velharias. O que procurava eu então?

Vi-o retirar de trás do balcão um pequeno embrulho que farejei, excitado pela surpresa, e precipitei as mãos sôfregas para desbaratar o papel que envolvia 5 filmes, 3 deles subordinados aum lamiré: o discurso que emerge a partir da representação de representações, proporcionado um olhar atento a outras expressões visuais (“Pollock” ; “Caravaggio”) e conduzindo-se, por outro lado, por um discurso mimético em relação a outras formas de representação plástica (“Os Livros de Próspero”).

Se não incluí o conjunto dos 5 filmes nesse plano de análise tal se deve ao facto de olhar os dois filmes restantes num plano simbólico em que me atrevo a situar, senão todos os actores/intervenientes (“200 Motels”) pelo menos o protagonista (“Performance”) das duas películas.

Trata-se de ícones da cultura Pop, encerrando a sua figura uma simbologia que conduz o espectador a uma pré-leitura, à catalogação desse significante (um ídolo do meio musical), sendo difícil esperar que o espectador o veja como actor, mas antes como uma figura que é estratégicamente usada pela sua carga simbólica junto do espectador.

E então amigo? - Disparou o capitão. Pediu-me 5 filmes que pudessem corresponder de alguma forma aos anseios dos visitantes do MOTM com particular interesse em visionar registos cinematográficos nos quais se pode constatar uma interacção com outras formas de expressão artistica: a música e as artes gráficas. Aí estão eles! – rematou, incisivo.

Satisfeito pelo resultado da pesquisa por ele elaborada, fiz continência ao capitão e ao seu papagaio de plástico, virei costas e eis-me novamente na rua frequentada por gatos com ar lamentoso, adoentado; de embrulho debaixo do braço, ia já a virar a esquina quando uma voz autoritária lançou um grito de ordem, “ao ataque meus piratas!!!”

Era ele, o capitão, de espada em punho, que a custo procurava arrastar ambas as pernas doentes para me conseguir intersectar. O susto transformado em terror imobilizou-me os músculos e fez-me aceitar a morte que o sabre ferrugento que se erguia no ar me queria impor, trespassando-me e fazendo-me tombar sobre uma poça de sangue.

Os meus olhos transidos pelo terror viram chegar-se ao meu rosto a máscara acabrunhada queno rosto do capitão se desenhara, …e os ouvidos escutaram:“Esqueceu-se de pagar os filmes, meu amigo!!!”

Levantei o chapéu de palha e de pronto caíu do interior uma pepita de ouro africano que lhe deixei na palma da mão.

Tendo recuperado o ar nos pulmões, senti-me vivo novamente, ...dei um pontapé no traseiro do vento e prossegui caminho até aqui.


The End

19 de jul. de 2010



CINEMA E PSICANÁLISE


DEI, NUM DESTES DIAS, UMA ESPREITADELA AO "HISTOIRE(S) DU CINEMA" POR

JEAN-LUC GODARD, ONDE ELE, PENDURADO NUM LONGO E ABUNDANTE

CHARUTO, SE ABSORVE PELO QUE VAI BATENDO NA MÁQUINA DE ESCREVER.

E LÁ VI, POR EXEMPLO, A IMAGEM DE JOHN FORD, O TAL QUE NAS ENTREVISTAS

NÃO DIZIA NADA, PARA TUDO DIZER NOS FILMES.

E LEMBRO-ME QUE NA "CAVALGADA HEROICA" ELE VEIO DIZER QUE NOS FILMES

DO FARWEST OS INDIOS NÃO PASSAM DE UM ELEMENTO DO

CENÁRIO, REPRESENTAM O MAL EXTERIOR, MAS...SE NÃO HOUVESSE O

"EU" NÃO HAVERIA MUNDO EXTERIOR (UMA PROJECÇÃO NOSSA).

É NOS OUTROS QUE IDENTIFICAMOS E CASTIGAMOS AS NOSSAS FALHAS,

NOSSOS DEFEITOS, NOSSO MAL.


QUANDO O ASSASSINO CUMPRE O SEU PAPEL, É O SEU SUBCONSCIENTE QUE O

IMPELE A LIBERTAR O MUNDO DO MAL QUE EXISTE EM SI, QUE O ATORMENTA,

MAS QUE ESTE SÓ NOS OUTROS IDENTIFICA, SÓ NOS OUTROS CASTIGA.

NÃO FOI ISSO QUE NOS DISSE SCORCESE EM "TAXI DRIVER"?

E NÃO TERÁ SIDO ISSO MESMO QUE QUIS DIZER BERGMAN QUANDO, EM

RESPOSTA AOS ELOGIOS DESMEDIDOS QUE CERTA VEZ GODARD LHE DIRIGIA,

LHE MANDOU DIZER:"QUANDO FALAMOS DOS OUTROS, DE QUE FALAMOS NÓS

SENÃO DE NÓS PRÓPRIOS"?

15 de jul. de 2010


O dragão - animal mítico que pela sua maldade deu água pela barba a S. Jorge, posto

em cima de tão galharda montaria e enfiado em férrea armadura, nomeado pela

providência para dominar tal fera - que mora naquela gruta mesmo ao fundo do vale

está a conjecturar fazer-me uma visita. O que pretende a vontade dele? Aterrorizá-lo,

dizem-me. É o papel dele, ripostei eu.


Como fui avisado com suficiente antecedência, deixei pregado na minha porta um

papel que o avisava de que eu não estava, que estava em trabalhos, entretido a

escrevinhar as linhas que se seguem:


Cinema Noir

ou

O Drama da Redenção

(O enquadramento teológico, histórico e psicanalítico)


Parte I

Na versão teologica da criação do mundo que as Sagradas Escrituras sustentam, as

personagens Adão e Eva (os “filhos”), desobedientes, comeram do fruto que o “pai”

(Deus) amaldiçoou, o fruto que permite o conhecimento do Bem e do Mal.


Por tal, são condenados à condição de mortais e a viver num mundo

de padecimentos.

A sua descendência (Abel – o sopro de vida e Caím – a destruíção) simboliza o

conflito das duas pulsões que se manifestam no subconsciente e orientam a vontade

humana (a pulsão da vida (Eros) e a pulsão da morte (Thanatos)).


A vida do Homem desenrola-se através duma sucessão de episódios, passando ele

por

um conjunto de provações impostas pelo destino que lhe foi traçado pelo “pai”.

O regresso ao Paraíso é-lhe prometido, mas para tal conseguir, o Homem precisa

aceitar o sofrimento de que é vitima, precisa redimir, dessa forma, os seus erros, o

mal que semeou no mundo. A Culpa e a Redenção.


A Civilização Ocidental ergueu-se então sobre os fundamentos éticos postulados pelo

mensageiro do “pai” (Jesus Cristo). Ele padeceu e morreu às mãos dos “filhos” de

Deus para revelar ao Homem que este é dominado pelo Mal, e que só a humildade e a

aceitação o podem aproximar novamente do “pai”, como é bem evidenciado na

Paixão

de Joana D’Arc, filmada por Dreyer.


Parece-me evidente, como escreveu Freud, que a nossa vida assenta em repetições,

repetimo-nos pela vida fora, sustentava ele, sendo oportuno, penso, assinalar essa

pulsão no comportamento humano desde o alvorecer da espécie humana. Sempre

vimos, no decurso da História, o aniquilamento do “pai”, com o objectivo da auto-

afirmação, da fuga à submissão.

30 de jun. de 2010


“Bloco de Notas”

O Cinema Noir…

Ou

o Drama da Redenção

Parte I

"O Expressionismo Alemão"


Foi com especial atenção e deleite que li a carta que me fez chegar por estes dias, a

dar nota das suas impressões após o visionamento de 2 filmes expressionistas

produzidos em Hollywood, que alguns críticos franceses eufemísticamente

designaram por “Noir”.


Para corresponder ao assunto da sua carta não tenho outro cavalo que me transporte

senão o que se alimenta dum paralelismo que vislumbro entre o drama vivido pelo

protagonista do filme “Noir” e o do “condenado” que segue um caminho penoso que

o conduz à redenção, no âmbito do drama de cariz teológico.


Desde já falo-lhe da génese da angústia que a corrente estética “Expressionismo”

assumiu como estandarte em finais da década de 10 do século passado. Angústia essa

gerada pelo trauma da vivência no mais terrível e devastador período da história

humana (1914-1945). Até ao século XX, nunca o indivíduo se sentira de tal forma

assaltado pelos seus próprios fantasmas, pela pulsão da morte, tão estranho perante

si próprio e, sobretudo, para com o “Outro”.


A Alemanha, a nação mais castigada e humilhada no seu orgulho, no desfecho da 1ª

Guerra Mundial, torna-se terreno fértil para o desenvolvimento, no campo da arte, de

um discurso pessimista, assombrado, consequência da humilhação do espírito épico

e patriótico do povo alemão, de que as óperas de Wagner e a filosofia de Nietzsche,

são quiçá, a expressão cultural mais retumbante.


É no seio desse povo de alma destroçada, que germina então um estilo de cinema

feito de sombras, de monstros humanos, de contrastes vincados (a duplicidade que

faz nascer, por exemplo, a figura da mulher fatal).

22 de jun. de 2010


Ai de nós, não passamos de uma nuance.

- F. Nietzsche


Sim, não era eu e a minha vontade quem esperou por Ela naquela manhã de

nevoeiro. Não era senão eu de braço dado com a minha consciência, e Ela sabia-o.

No fundo nenhum de nós desejava estar em presença do outro, apreciávamos, isso

sim, a nossa representação através da voz, via telefone, ou através das mensagens

trocadas na net.


Amamos a representação que a nossa intuição, alimentada pela imaginação, faz do

outro, a partir dos escassos elementos comunicantes que percepcionamos. Esse

“pouco” confortava-nos, não desejávamos ter o “eu” presencial do outro.


Abri a lista de mail´s para ler a mensagem que lhe havia enviado com a intenção de

espicaçar a sua curiosidade pelo filme “Crash” de David Cronenberg.


“Os Meus Filmes do Blog”

“Crash” – David Cronenberg, 1996

Parte III

Fucking Days, Fucking Dogs

Ou

As novas plataformas do “Eu” e do “Outro”


As cenas de “Crash” desenvolvem-se em torno de termos recorrentes: sexo, perigo,

excitação e morte. Ao longo das auto-estradas e dentro dos carros os personagens

são envolvidos numa espécie de sub-cultura onde se descobrem novas formas de

sexualidade, no confronto com o desejo para a morte, no seu desafio e na consciência

que um dia a morte vencerá.”


Ela sabia que esperei naquela manhã obedecendo aos ditames da minha consciência

que me ordenou me prestasse a conhecê-la pessoalmente, para não me negar à vida,

não me refugiar no quarto, não me abraçar ao medo, escondido atrás dum écrãn ou

do outro lado do auscultador.


E foi durante o mergulho que dei nestes pensamentos, que ela me ligou para concluir

as suas impressões sobre “Crash”, o filme que vira na outra noite.

Esta é uma era da produção do “outro”, onde a pior alienação é estar despojado do

“outro”, ter de o produzir na sua ausência. Esta ausência preenche-se com as

invenções técnicas que amputam ou acrescentam, modelando o corpo em função de

um modelo ideal.


Fiquei prostrado no sofá, filtrando as palavras que a minha vizinha deixara no meu

ouvido, assumindo uma outra identidade com a voz, apenas a voz, uma faceta, uma

nuance, e não um todo.


“…esse modelo ideal é feito de marcas impressas nas cicatrizes do corpo, como um

catálogo de ferimentos, cheios de amputações e implantes, num esquema em que os

dispositivos da técnica permitem re-alcançar a integridade do corpo, ainda que se

mantenham os vestígios do que parecem ser cicatrizes ou se utilizem próteses…pró…

pró…pró…pró…pró…pró…pró…pró…pró…pró…pró

E foi então que se instalou uma súbita anomalia do outro lado; a voz da minha

vizinha começou a repetir indefinidamente a primeira sílaba da última palavra. Sem

precisar de ouvir mais, ajustei os atacadores dos sapatos, deixei a queimar no cinzeiro

o cigarro (que não fumo) e saí para a rua.


The End


Bibliografia:

Todas as citações empregues nas três partes de que se compõe este “texto” foram retiradas do ensaio “Uma Metáfora Chamada “Crash” – A inquietação do corpo”, da autoria de Paula Cordeiro.