22 de set. de 2010


"O Cinema Noir...ou...o Drama da Redenção"

As Inspirações Noir (o cinema expressionista alemão)

Parte VI

No campo do cinema, a mais relevante fonte de inspiração do filme Noir é o expressionismo alemão dos anos 20. Esta corrente estética desenvolveu um estilo visual que serviu para simbolizar, através da abstracção, da deformação, da estilização, dos dramas impregnados de morbidez e fatalismo, temas que agradavam aos alemães devido à sua forte tradição romântica.

"O signo expressionista - dizia Roger Cardinal - ressalta as experiências emocionais do artista sob formas excepcionalmente vigorosas."

As influências do expressionismo estão presentes no Noir, sobretudo nos seus personagens envolvidos por neuroses. Os ambientes escuros e as tramas obscuras, demenciais, são factores que contribuem para o desespero destes personagens, assim como as sequências de pesadelos, que fazem com que os filmes se tornem altamente subjectivos, a partir do momento em que mostram ao público parte do que se passa na mente do herói.

Fugindo da Segunda Guerra Mundial, muitos cineastas alemães emigraram para os EUA; falamos de Fritz Lang; Robert Siodmak; Billy Wilder; Otto Preminguer.
Estes directores encontraram aí um terreno fértil, dirigindo filmes de baixo orçamento, os chamados filmes série B que permitiam certo grau de inovação. Mas é no Noir que tais realizadores encontraram a possibilidade de experimentação e introdução de influências cinematográficas trazidas do seu país de origem para Hollywood.

20 de set. de 2010


Au hasard Balthazar, Robert Bresson

A este filme-milagre coloco-o no mesmo saco em que deposito as obras de perfil religioso dos pintores medievais, de Giotto a Rafael.
Este é um filme que nos fala da descida aos infernos, uma recriação da Paixão de Cristo.

Filme tão complexo, prato em tão simples lume confeccionado, contudo. E se falo em lume, falo também na fogueira em que ardeu Balthazar, que passivamente deixa - tal como na Paixão de Cristo - o seu destino nas mãos dos que o agrediram, o mal, supremo mal que atormentou Balthazar, um santo - nas palavras da velhota.
Tocado pela Graça de Deus, martirizado trilhou o caminho da redenção... tal como se escreve nos Evangelhos.

As poses piedosas de Marie (Mãe, que adoptou e baptizou o pequeno burrito; e prostituta, que se entregou aos que fizeram mal ao seu Balthazar, com o intuíto de o proteger de mais sofrimento) foram sempre as poses duma pietá - mãe de Cristo, velando o seu filho morto, descido da cruz.

Este, que é um dos mais belos e trágicos filmes da historia, deixa-nos confrontados com a nossa pequenez, estremeção da alma, que ao visionar esta obra fica prostrada como o corpo de Cristo no regaço de sua mãe.


17 de set. de 2010

Visitor q, Miike Takashi, 2001


A Lei da Compensação risca, traça rumos no campo da Psicologia. Que um chefe de família falhado no seu trabalho como repórter, compense essa falha com a realização de uma reportagem caseira sobre a juventude japonesa, passa necessáriamente por fazer concessões à perversidade tão explicita de que a sexualidade na sociedade japonesa actual faz espelho.
Filme-montra da desagregação dos valores tão enraízados numa sociedade fortemente marcada pela tradicão. Perversidade que se mostra nas práticas sexuais das personagens, bem como na radical desagregação moral dos valores de um povo.

Um vídeo caseiro é o poder na mão dum pobre e falhado repórter de se sentir um semi-deus, formar o seu Olimpo de que ele é o Zeus, no próprio microcosmos familiar.
Realizar um vídeo caseiro para posterior divulgação faz-me recordar o filósofo que falava na invasão do "espaço público" pelas particularidades das histórias privadas.

16 de set. de 2010



Servo designado pelo Senhor para ministrar a criação das nações e a diversidade das gentes, Abraão é aqui convocado por Agustina & Oliveira para tornar o vale do seu regaço um altar sacrificial onde, mais uma vez, é desafiado a sacrificar um dos seus filhos - Ema, a mulher moderna, que de ousadia vestiu a sua postura, sendo por isso excluída do seio humano, partindo, derrotada pela solidão, para o sacrificio nas águas do rio, transportando consigo a condenação que o seu carrasco (Pedro Lumiares) lhe expressa.

15 de set. de 2010


A vagua era nova...

Nesta vaga - post-modern cinema pelas mãos de Godard, que a recupera, a ela, actriz que foi implacável em Lilith, e mais uma vez levou ao tapete, de desespero confeccionado, um homem iludido, Quixote revivificado.

11 de set. de 2010


" O CINEMA NOIR ... ou ... O DRAMA DA REDENÇÃO"

Capitulo V

As Inspirações Noir (as novelas policiais)


As histórias escritas, nos anos 30, por Dashiell Hammett revolucionaram a forma dos romances policiais, inserindo acção, sexo, violência. Dotado de uma escrita coloquial na qual se observava um ritmo solto, rápido, uma linguagem directa com aspecto típico americano. Saem de cena, portanto, os detectives gentleman, de perfil inglês, e entram em cena os detectives "duros", de linguajar pouco rebuscado.

Hammett traz os crimes para a cidade, o ambiente e as sensações que nesse cenário se passam tornam-se mais importantes que a intriga. Os romances policiais passam a ter gente de carne e osso: matadores de aluguer, policias corruptos, prostitutas, chantagistas, traficantes e detectives particulares que são pessoas comuns e não "máquinas pensantes de desvendar mistérios".

Existe uma clara relação entre a história deste novo tipo de detective e o método narrativo de Hollywood. Por exemplo, a exposição da intriga e a caracterização das personagens tendem a ser económicos; o diálogo é breve e os capítulos terminam com uma súbita revelação ou uma acção interrompida abruptamente.

O mundo noir que estes romances policiais ajudaram a dar corpo é mais psicológico que físico, e caracteriza-se principalmente pelos sentimentos que aos poucos destroem as personagens e o medo da descoberta do crime. São enredos vividos por pessoas sem grande importância, desesperadas e solitárias.


9 de set. de 2010


"O CINEMA NOIR ... ou... O DRAMA DA REDENÇÃO"

Parte IV

As Inspirações Noir (a Literatura)


A influência literária, dizem os manuais, vem das Pulp Magazines, revistas impressas em papel barato. A revista Black Mask é a grande inspiração, lá surgiu a escola hard-boiled de histórias de detectives, marcada pela presença de detectives durões que usavam mais os punhos do que o cérebro.

Estas revistas, cuja génese se dá nos principios do século, tiveram o seu apogeu entre 1920 e 1945. Eram revistas especializadas nos géneros: Western; histórias fantásticas; de guerra; de detectives, etc.

O género Noir era cultivado em histórias de crimes nas grandes cidades. O ambiente e a sensação que os seus enredos transmitiam (ao explorarem a psicologia das personagens) tornaram-se mais importantes do que a intriga.

O mundo Noir é dicotómico, de um lado temos o submundo com os seus crimes, violência e vício, e do outro temos o mundo "respeitável" da propriedade burguesa. Um mundo duplo no qual o herói é inserido, o que o deixa confuso sobre o que se passa ao seu redor e sem saber em quem confiar, pois aqueles com quem se envolve são mentirosos, corruptos, perversos, ameaçadores ou violentos.

Durante toda a narrativa o herói tem a sua inteligência e integridade testadas, o que o protege é a sua visão desconfiada acerca do que leva as pessoas a tomarem determinadas atitudes. Este herói esforça-se por pôr ordem no mundo Noir; isto está patente, por exemplo, na busca do controlo da sexualidade feminina que ameaçava os padrões da época.

Todos estes elementos encontrados na literatura Noir, tornam-se um prato apetecível para Hollywood.

8 de set. de 2010



Lee Van Cleef ... aristocrática figura entre brutos... num cinema bruto... Western Spaghetti... o circo onde o agreste leão dá caça ao crocodilo feroz, que - exibindo as mandíbulas à corrupção do vento - morde a gazela venenosa.

26 de ago. de 2010

A BELA IMPERTINENTE

(Jaques Rivette,1991)


A líbido como prisão e libertação

O predador e a presa,

Eis a velha proposição,

Que, passando os tempos se vão

E se mantém tão acesa.

Porém, uma questão se impõe com firmeza:

O predador… não poderá ser também a presa?!


Enquanto me dirigia para aqui, passei pela entrada de uma caverna, a caverna mítica; abreviei o passo e levei os meus olhos curiosos a espreitar lá para os seus interiores…e que viram os meus olhos surpreendidos? Um dragão refastelado nos seus Reais aposentos (a caverna que tinha gravadas nas paredes duas figuras femininas, uma delas de uma beleza notável, a outra nem por isso, figura desgastada pela corrupção do tempo, que o tempo se encarregou de disfarçar os traços, sem elegância nas formas, velha gravura dos tempos da face negra da lua).

Enquanto dormia, o dragão ia soltando algumas palavras. Pude perceber que, balbuciando os lábios, ia contando alguns episódios de uma história, remexendo as órbitas e a saliva escorrendo dos lábios agitados.

Dizia ele que um certo pintor, que vivia num castelo com a sua esposa, encarava as suas modelos como o caçador encara a presa que lhe escapa, e só tirava prazer do acto de as pintar enquanto a modelos lhe resistem, o seu corpo e sua vontade não se dispõem às poses com que ele as quer fixar na tela.

Certo dia aquela que veio a ser sua esposa fora também sua modelo para um quadro que para ele era então um desafio, mas de repente o pintor perdeu a motivação e deixou-o inacabado, muito incompleto. Ela deixara de lhe proporcionar uma “caçada” mesmo antes de ser fixada na tela, pois por ele se apaixonara.

Antes ele dizia-lhe: “Quero pintar-te porque te amo”, mas a partir do momento em que ela aceita fazer parte dele, do seu microcosmos, ele confessa-lhe: “Não te quero pintar porque te amo”, o amor falava por ele.

E foi nessa lógica montado que ele propôs a uma jovem que o visitara no seu castelo, acompanhada do marido, que dele se fizesse modelo. Ela tinha o nariz empinado, lá isso tinha, era muito senhora de si. Embora amasse o marido, pressentia já que um dia se zangariam a sério, era como se ela soubesse já que a relação deles não tinha futuro, como se andasse em busca de uma fuga, inquieta.

Ela aceitou, contrafeita, embora não suportasse os modos desagradáveis do pintor; e lá foi com ele para o ateliê.

Que nos intervalos das sessões no ateliê, a modelo procurava a esposa do pintor para que esta dele falasse para ela melhor conhecer a postura distante e “superior” do pintor para com ela; foi algo que também percebi que o Dragão sonolento deixou escapar por entre os lábios.

E o dragão foi contando que por esses dias naquele castelo onde tudo se passava, o silêncio reinava, as paredes de pedra tinham um semblante frio para que a palavra a tudo se sobrepusesse, para que ela revelasse que nada nem ninguém tivesse naquele castelo mais força que a palavras.

E o que é certo é que se ao princípio o pintor a tratou com rispidez, pegando-lhe, bruto, nos braços e ombros, forçando o seu corpo às poses que pretendia, como se duma luta se tratasse, ela, porém foi vencendo a sua rispidez, a sua “superioridade” de senhor daquele espaço e da presa encurralada.

Ela foi conversando com ele, conquistando a sua simpatia e a certa altura ELE ACEITAVA JÁ as suas poses naturais, nada lhe impondo, antes aproveitando para fixar as poses dela que achou mais interessantes nesse momento de comunhão de espíritos.

Mas depois desse MOMENTO ORGÁSTICO, ambos se fecharam novamente, foi como se depois de ambos se terem partilhado, ele se sentisse vencido, o predador sentia-se ferido no seu orgulho, e deixa de ter estímulo para pintar, sem saber lidar com a aproximação que entre os dois se gerara, sentia-se vencido por aquela que sempre vira como presa.

Deixou o quadro inacabado, escondeu-o num lugar inacessível para que ninguém sentisse que ele fora derrotado.

Então, ele pintou à pressa um corpo sem rosto, um corpo anónimo, e assim tanto ele como ela se conseguiram libertar, afinal, da tensão do “COMBATE” QUE ENTRE ELES SE INSTALOU desde o momento em que ela lhe invadiu o refúgio para perturbar a sua paz, como ele referiu no início do filme.

Nas sequências finais, vêmo-los já descomprometidos com as amarras, os medos que os prendiam.

E se eu caí abaixo da cama nesse momento da narração, foi apenas porque me vieram acordar - quando eu sonhava com a caverna do animal mítico - avisando-me de que o pequeno-almoço estava já na mesa.

23 de ago. de 2010

BARRY LYNDON….o anti-herói quixotesco

(Stanley Kubrick, 1975)

Os tempos de Rolando* passaram, os do Quixote não mudam. E porquê esta disparidade? Porque se atrofiam os heróis sublimes enquanto que os ponderados mestres do fracasso se mantêm de pé? …”

- Agustina Bessa-Luís-


O esplendor que abraça esta película é constatado, desde logo, pela sua plasticidade, pelo cuidado na composição das imagens. Neste campo, o filme aproxima-se, creio, do trabalho de alguns pintores ingleses, o barroco Gainsborough e os românticos Constable e Turner, pelas cores e os céus daquelas paisagens que ele filma como se quisesse fazer um breve intervalo na narrativa e deixar a “voz off” fazer a ligação para o que a seguir veremos, sobreposta a uma paisagem, por vezes tão arrebatadora imagem.

Este trabalho de Kubrick é igualmente objecto de devoção pela particularidade do uso exclusivo de luz natural, factor de veracidade que contrasta seriamente com a postura de algumas personagens na trama do filme, em particular a conduta do seu protagonista, como iremos verificar.

O enredo do filme é, no fundo, o desenrolar da saga (pouco venturosa) de um homem de origem humilde que ainda moço dá mostras de se encaminhar por uma conduta heróica e romântica, dissolvendo-se depois o seu carácter na imitação da perfídia das personagens por quem foi sendo iludido e enganado ao longo da primeira metade do filme (a prima, os ladrões na estrada, a prostituta com o menino, o capitão do exército prussiano).

Barry Lyndon é a saga duma personagem de perfil quixotesco, desde logo pelo seu carácter romântico, quando jovem, montado no seu cavalo, pouco preparado para as rasteiras que a vida lhe pregaria; ele segue montado no “cavalo da ilusão”, deslocado da realidade, pela vida fora.

Na segunda metade do filme vêmo-lo como um jogador, um trapaceiro, um peão ao serviço da mentira, a duplicidade, que o capitão do exército prussiano ajuda a refinar na sua mente.

Mais uma vez o vemos embarcar, em cima de um cavalo, numa ilusão que agora se molda pela conquista de fortuna e estatuto social que lhe permitirão uma vida tranquila e desregrada. Isso ele conseguiu, mas por via da fuga à realidade para a qual tendia a sua mente, mais uma vez o infortúnio lhe bate à porta, e termina derrotado num duelo, é-lhe amputada uma perna, e na ultima cena, o realizador poupa-o a uma ultima humilhação: ver-mo-lo cair abaixo da diligência.

Não criou raízes, nada construiu, viveu à custa de mentiras que prejudicaram os outros. Contudo, não consigo reprovar mais a sua postura do que a das personagens que foram traindo as suas ilusões.

Será apenas a um homem e à sua falta de princípios que Kubrick aponta o dedo nesta obra? Não me parece, antes sou levado a crer que este filme é, isso sim, um libelo acusatório a uma ideologia política (liberalismo) assim como a um sistema económico (capitalismo) que este autor quer desmascarar na personagem de Barry Lyndon, que cresce num meio que desponta e refina o mal e a perfídia no ser-humano.

Quando concluíu as filmagens desta obra de tom “amargurado”, Kubrick poderia ter dito algo semelhante ao que Raskolnikov, o assassino de “Crime e Castigo”, já vencido pela culpa e tomado pela lucidez, desabafou: “Não matei um ser humano, mas sim um principio”.


*Rolando: personagem da literatura medieval e renascentista europeia, inspirada num obscuro conde que viveu no sec. VIII. Foi sobrinho e paladino do imperador Carlos Magno e morreu heroicamente, lutando contra os Mouros na Peninsula Ibérica.