26 de jul. de 2010
Os maiores fracassos de bilheteira dos anos 00
24 de jul. de 2010

Stationary Traveller
(uma rumagem imaginária pelos becos e prateleiras, pelo pó e vielas, por montes e vales, na busca de 5 filmes para a lista que apresentei no MOTM)
O senhor de modos graves e gestos profundos que se plantou à entrada do videoclube que havianaquela tarde, ao cair do sol, dirigiu-me um gesto discreto, envergonhado até, com a mão mutilada em combate, convidando-me a entrar.Envergando um estimado fato de marinheiro, um atento papagaio trazia poisado no ombro, bicho de olhar fixo, que atentou em mim com olhos miudinhos, adormecidos, de olhar morto, lamentoso. E foi então que fiquei parado à entrada, passando pelo interior do videoclube um olhar pesquisador, não me apercebendo que entretanto um cachorro atrevido aliviara a bexiga nos meus sapatos… humilhados.
De bigodes fartos e envelhecidos, o capitão trazia sentados na cana do nariz uns óculos necessários, ele que assim figurado com traços românticos, aventureiros, representava a vitória da memória dolorosa num homem sobre quem o tempo julga, e com razão, que venceu, que derrotou.
E porque havia sido capitão de um navio pirata, e porque, cansado da pirataria rumou a Hollywood onde lhe atribuíram papeis de pirata em filmes musicais, nos quais cantava e dançava de espada em punho, ei-lo que justificou assim a alcunha de “Capitão”.
Fiquei contente por vê-lo ocupado, a não apodrecer no canto do tédio, arrumado, como o casco fossilizado dum barco rabelo que apreciei nas encostas do Douro, absorvido pelas raízes dasvideiras pródigas, que nele lambem o húmus da madeira carcomida para temperarem a casta.
Ele soube, nunca revelou como, que eu deambulava pelas vielas negras, esquecidas, estreitíssimas, farejando em velhos videoclubes de paredes já apodrecidas, de olho fixo nasprateleiras curvadas sob o peso das velharias. O que procurava eu então?
Vi-o retirar de trás do balcão um pequeno embrulho que farejei, excitado pela surpresa, e precipitei as mãos sôfregas para desbaratar o papel que envolvia 5 filmes, 3 deles subordinados aum lamiré: o discurso que emerge a partir da representação de representações, proporcionado um olhar atento a outras expressões visuais (“Pollock” ; “Caravaggio”) e conduzindo-se, por outro lado, por um discurso mimético em relação a outras formas de representação plástica (“Os Livros de Próspero”).
Se não incluí o conjunto dos 5 filmes nesse plano de análise tal se deve ao facto de olhar os dois filmes restantes num plano simbólico em que me atrevo a situar, senão todos os actores/intervenientes (“200 Motels”) pelo menos o protagonista (“Performance”) das duas películas.
Trata-se de ícones da cultura Pop, encerrando a sua figura uma simbologia que conduz o espectador a uma pré-leitura, à catalogação desse significante (um ídolo do meio musical), sendo difícil esperar que o espectador o veja como actor, mas antes como uma figura que é estratégicamente usada pela sua carga simbólica junto do espectador.
E então amigo? - Disparou o capitão. Pediu-me 5 filmes que pudessem corresponder de alguma forma aos anseios dos visitantes do MOTM com particular interesse em visionar registos cinematográficos nos quais se pode constatar uma interacção com outras formas de expressão artistica: a música e as artes gráficas. Aí estão eles! – rematou, incisivo.
Satisfeito pelo resultado da pesquisa por ele elaborada, fiz continência ao capitão e ao seu papagaio de plástico, virei costas e eis-me novamente na rua frequentada por gatos com ar lamentoso, adoentado; de embrulho debaixo do braço, ia já a virar a esquina quando uma voz autoritária lançou um grito de ordem, “ao ataque meus piratas!!!”
Era ele, o capitão, de espada em punho, que a custo procurava arrastar ambas as pernas doentes para me conseguir intersectar. O susto transformado em terror imobilizou-me os músculos e fez-me aceitar a morte que o sabre ferrugento que se erguia no ar me queria impor, trespassando-me e fazendo-me tombar sobre uma poça de sangue.
Os meus olhos transidos pelo terror viram chegar-se ao meu rosto a máscara acabrunhada queno rosto do capitão se desenhara, …e os ouvidos escutaram:“Esqueceu-se de pagar os filmes, meu amigo!!!”
Levantei o chapéu de palha e de pronto caíu do interior uma pepita de ouro africano que lhe deixei na palma da mão.
Tendo recuperado o ar nos pulmões, senti-me vivo novamente, ...dei um pontapé no traseiro do vento e prossegui caminho até aqui.
The End
19 de jul. de 2010

15 de jul. de 2010

O dragão - animal mítico que pela sua maldade deu água pela barba a S. Jorge, posto
em cima de tão galharda montaria e enfiado em férrea armadura, nomeado pela
providência para dominar tal fera - que mora naquela gruta mesmo ao fundo do vale
está a conjecturar fazer-me uma visita. O que pretende a vontade dele? Aterrorizá-lo,
dizem-me. É o papel dele, ripostei eu.
Como fui avisado com suficiente antecedência, deixei pregado na minha porta um
papel que o avisava de que eu não estava, que estava em trabalhos, entretido a
escrevinhar as linhas que se seguem:
“Cinema Noir
ou
O Drama da Redenção”
(O enquadramento teológico, histórico e psicanalítico)
Parte I
Na versão teologica da criação do mundo que as Sagradas Escrituras sustentam, as
personagens Adão e Eva (os “filhos”), desobedientes, comeram do fruto que o “pai”
(Deus) amaldiçoou, o fruto que permite o conhecimento do Bem e do Mal.
Por tal, são condenados à condição de mortais e a viver num mundo
de padecimentos.
A sua descendência (Abel – o sopro de vida e Caím – a destruíção) simboliza o
conflito das duas pulsões que se manifestam no subconsciente e orientam a vontade
humana (a pulsão da vida (Eros) e a pulsão da morte (Thanatos)).
A vida do Homem desenrola-se através duma sucessão de episódios, passando ele
por
um conjunto de provações impostas pelo destino que lhe foi traçado pelo “pai”.
O regresso ao Paraíso é-lhe prometido, mas para tal conseguir, o Homem precisa
aceitar o sofrimento de que é vitima, precisa redimir, dessa forma, os seus erros, o
mal que semeou no mundo. A Culpa e a Redenção.
A Civilização Ocidental ergueu-se então sobre os fundamentos éticos postulados pelo
mensageiro do “pai” (Jesus Cristo). Ele padeceu e morreu às mãos dos “filhos” de
Deus para revelar ao Homem que este é dominado pelo Mal, e que só a humildade e a
aceitação o podem aproximar novamente do “pai”, como é bem evidenciado na
Paixão
de Joana D’Arc, filmada por Dreyer.
Parece-me evidente, como escreveu Freud, que a nossa vida assenta em repetições,
repetimo-nos pela vida fora, sustentava ele, sendo oportuno, penso, assinalar essa
pulsão no comportamento humano desde o alvorecer da espécie humana. Sempre
vimos, no decurso da História, o aniquilamento do “pai”, com o objectivo da auto-
afirmação, da fuga à submissão.