
O Cinema Noir…
Ou
o Drama da Redenção
Parte I
"O Expressionismo Alemão"
Foi com especial atenção e deleite que li a carta que me fez chegar por estes dias, a
dar nota das suas impressões após o visionamento de 2 filmes expressionistas
produzidos em Hollywood, que alguns críticos franceses eufemísticamente
designaram por “Noir”.
Para corresponder ao assunto da sua carta não tenho outro cavalo que me transporte
senão o que se alimenta dum paralelismo que vislumbro entre o drama vivido pelo
protagonista do filme “Noir” e o do “condenado” que segue um caminho penoso que
o conduz à redenção, no âmbito do drama de cariz teológico.
Desde já falo-lhe da génese da angústia que a corrente estética “Expressionismo”
assumiu como estandarte em finais da década de 10 do século passado. Angústia essa
gerada pelo trauma da vivência no mais terrível e devastador período da história
humana (1914-1945). Até ao século XX, nunca o indivíduo se sentira de tal forma
assaltado pelos seus próprios fantasmas, pela pulsão da morte, tão estranho perante
si próprio e, sobretudo, para com o “Outro”.
A Alemanha, a nação mais castigada e humilhada no seu orgulho, no desfecho da 1ª
Guerra Mundial, torna-se terreno fértil para o desenvolvimento, no campo da arte, de
um discurso pessimista, assombrado, consequência da humilhação do espírito épico
e patriótico do povo alemão, de que as óperas de Wagner e a filosofia de Nietzsche,
são quiçá, a expressão cultural mais retumbante.
É no seio desse povo de alma destroçada, que germina então um estilo de cinema
feito de sombras, de monstros humanos, de contrastes vincados (a duplicidade que
faz nascer, por exemplo, a figura da mulher fatal).