
Numa dessas manhãs submersas pelo nevoeiro, quem me quisesse encontrar, dava comigo a
deambular de trás para a frente, com as mãos atrás das costas, qual Willie Fog no embarcadouro
do porto de Londres, excitado pela perspectiva de de se ir entregar a uma das mais
mirabolantes
experiências por que um humano jamais houvera passado: enfrentar desafios e perigos inauditos
com povos e bichos adversos pelos quatro cantos do mundo; isto a fazer fé na versão infantil dos
livros Disney, com a insuperável dupla de heróis Mickey e Pateta como protagonistas da referida
epopeia.
Nessa manhã, à entrada do meu prédio, apresentava-me aperaltado, limpo, barbeado de fresco e
com hálito de menta, e não me importava que o soubessem. Mas passaram-se os minutos às
mãos cheias e nem cheiro dela. Desisti, dei meia volta e subi a escadaria do prédio até ao 2º
andar. Enquanto limpava os sapatos no tapete, o telefone, lá dentro, avisava que alguém queria
dizer, queria falar.
Já lá dentro, fixei o olhar num cartaz que havia na parede da sala. Ema, de Vale Abraão, encosta
o seu olhar à gaiola que enclausura um canário. Se o olhar dela o encanta, como para o engolir
com o seu desejo, logo me pareceu, nesse instante, ouvi-lo cantar um canto suplicante…e foi
então que levantei o auscultador…para Ela me dizer:
“ Os Meus Filmes do Blog “
CRASH – David Cronenberg, 1996
(Fucking Days, Fucking Dogs…ou…a morte do Romantismo como vivência subordinada ao SENTIMENTO e ao IDEAL)
Parte I
Ela: “A narrativa de “Crash” desenvolve-se a partir de um acontecimento que é o mito
fundador da mudança: os meandros do corpo, de noção de corpo, de limites e da exploração
de novas sensações que culminam numa nova vivência sexual.”
Sentei-me entretanto no sofá felpudo para melhor a ouvir falar do filme que fôra ver na noite
passada, imaginando que afagava o pêlo do meu cachorro lúlú, que não estava ali como de
costume, que não andaria longe , por certo.
A mudança de que ela falava via-a eu na postura do meu lúlú de Pekão (cidade do império
chinês,
perdida algures nas planícies da Conchichina, província do reino de Sião) e na lúlú de Pekim,
cachorra estimada da vizinha cuja voz amável tenho ao ouvido, no auscultador, relatando
impressões do filme que vira na noite anterior.
Eles não são mais os mesmos, de cães de companhia, viraram companheiros infieis, ausentes eles
se tornaram desde que ouviram falar da revolução sexual e da sociedade da combustão,
conceitos
que entraram na mente de muita gente nos idos da década de 60 do século já passado.
Eles amam as feridas mútuas, feridas que acentuam quando se amam apenas como animais, já
sem sentimento, afeição, castigam-se e magoam-se ao se amarem com violência, ficam
momentos longos contemplando seus centímetros de cicatriz, corpo mutilado, mente torturada
pelo vazio de que são escravos, enredados num espaço diminuto, no meu apartamento ou no
apartamento d’Ela, Ela que continuou, dizendo:
“A mutação do corpo humano, provocada pelos acidentes de viação, desencadeia a queda de
tabus, vergonhas ou preconceitos que propiciam toda uma nova lógica de desafio. Nesse
desafio, constroem-se novas acepções para o corpo num desejo escapista a uma normalidade
repugnante.”
Deixei cair na alcatifa a cinza do cigarro que não fumava, porque a visão dos dois canídeos na
minha varanda, debruçados sobre o espectáculo dos condutores que disparam os bólides sobre o
asfalto da rua, despertou-me a comparação imediata com o prazer que os personagens do filme
em causa desfrutam do objecto automóvel, o qual se impulsiona para a frente de uma forma
desenfreada e cega, submetendo-se à sorte e à pulsão da morte dos condutores.
Os personagens de “Crash” vibram bem no fundo do arrepio do sexo a entrega a um frémito
louco, irracional e seguindo o caminho da pulsão destrutiva. Sim, foi isso que vi ao observar o
meu lúlú de Pekão excitado com a competição dos bólides, imita-os, impondo com violência o seu
sexo às entranhas magoadas do corpo mordido e maltratado da lúlú de Pekim.
É o tédio e a tentativa de fuga, a fuga para a frente contra o muro, rematei eu, para explicar a
mim próprio a causa do que se impunha a meus olhos arrepiados com tão escabrosa mudança
nos
outrora tão românticos animais de estimação, precisamente a lúlú de Pekim e o lúlú de Pekão.